A proposta de moeda comum é bem recebida por especialistas

Polêmicas, dúvidas e opiniões divididas foram provocadas pela declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a criação de uma moeda comum entre Brasil e Argentina, que poderia ser chamada de Sur. A ideia é que as equipes econômicas do Brasil e da Argentina trabalhem em uma proposta de criação de uma moeda única que possa ser utilizada nos fluxos comerciais e financeiros para reduzir os custos operacionais e a dependência de moedas estrangeiras. O presidente Lula anunciou ontem em entrevista conjunta com o presidente da Argentina, Alberto Fernández, em Buenos Aires, que os governos do Brasil e da Argentina formarão um grupo de trabalho para estudar a criação de uma moeda comunitária comercial – ou unidade de conta comum – para ser usada em transações entre os dois países para reduzir em função do dólar.

A ideia foi bem recebida pelos especialistas ouvidos pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO e pode estreitar as relações entre os países envolvidos. Mas a viabilidade foi questionada porque a situação econômica do Brasil e da Argentina é muito diferente.

“Vale ressaltar que a proposta ainda está em análise”, observa a presidente do Conselho Econômico Regional – Região 10 – Minas Gerais (Corecon-MG), Valquíria Assis. Ele explica que uma das vantagens de se criar uma moeda é facilitar a comercialização de compras e vendas entre os países, ou seja, diminuir as barreiras comerciais, simplificar e modernizar as regulamentações.

Para o líder, a moeda comum dos blocos latino-americanos costuma ser positiva porque dinamiza e fortalece as relações financeiras e comerciais. “Mas isso não seria uma realidade imediata”, insiste. Ele lembra que o ex-ministro da Economia Paulo Guedes também defendeu a adoção da moeda única. Em maio de 2022, durante o Fórum Econômico Mundial, o então ministro da Economia voltou a falar sobre a possibilidade de uma moeda comum entre Brasil e Argentina, o “peso-real”, tema já sugerido em 2019, diferente do atual governo proposta. Na ocasião, Guedes defendeu maior integração da América Latina em um cenário de 15 anos.

O economista e consultor de bolsa de valores do iHUB Cambio, Maciel Vicente, também analisou positivamente a possibilidade de redução de custos nas transações financeiras e comerciais entre os países envolvidos. No entanto, ele ressalta que a adoção da ideia não acontecerá rapidamente.

Para o financeiro e planejador financeiro Marlon Glaciano, a principal vantagem de uma moeda única é que deixaria de usar o dólar no comércio, o que traria comodidade. No entanto, ele observa que existem obstáculos para que isso aconteça. “O desafio é harmonizar políticas financeiras em países com características muito diferentes”, observa. É o caso do Brasil e da Argentina, que vivem momentos econômicos distintos.

Ele afirma que depois de muitos estudos e muitos anos de análise, a proposta pode ser realista. – É até impossível precisar por quanto tempo, porque muitas equipes econômicas estariam envolvidas nesse tema – observa.

Ontem, o presidente Lula declarou em Buenos Aires que tudo seria feito “com muitos debates e muitas reuniões” e que, se dependesse dele, o comércio exterior seria sempre feito em moedas de outros países, para não depender do dólar .

Para o CFO e CEO da Epar, Eduardo Luiz, a ideia de uma moeda única no contexto do Mercosul seria positiva do ponto de vista de aumentar a integração entre os países, principalmente na esfera econômica, mas não seria viável hoje porque a economias dos países envolvidos não estariam maduras. “Não podemos tratar os desiguais igualmente”, diz ele. Ele lembra que as condições econômicas entre Brasil e Argentina são muito diferentes. “Hoje não há horizonte”, enfatiza. O diretor da empresa, especialista em gestão, diz que o Brasil precisa intensificar as relações com regiões e países que trazem mais divisas, como a Ásia.

Já para o coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec BH, Ari Francisco Araujo Jr., a moeda contábil proposta não é necessária porque não traria benefícios comerciais. Ele diz que o Brasil tem outras prioridades, como o controle da dívida pública.

DIFERENÇA ENTRE MOEDAS COMUNS E COMUNS

A adoção do Sur não significa a morte do actual e do peso argentino, pois a nova moeda seria utilizada para transações comerciais – explica o presidente do Conselho Econômico Regional – Região 10 – Minas Gerais (Corecon-MG). “Como está proposto, a moeda comum coexistiria com as moedas dos países envolvidos”, explica.

Um exemplo de moeda comum é o euro, adotado nos países que formam a União Européia, utilizado não só nas relações comerciais, mas também no dia a dia dos habitantes da região. A moeda comum que Brasil e Argentina pretendem criar serviria apenas para facilitar as transações comerciais sem a necessidade de recorrer ao dólar.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse ontem que o plano de criar uma moeda única entre Brasil e Argentina nada tem a ver com a ideia do ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, de criar uma divisão única.

“Meu antecessor defendeu a moeda única, não é disso que estamos falando, não é ideia do Paulo Guedes. Trata-se de avançar em instrumentos que foram planejados e que não funcionaram a contento”, disse em evento em Buenos Aires, Argentina.

O ministro citou a possibilidade de pagamentos em moeda native pelos dois países e o acordo de Pagamentos e Créditos Mútuos (CCR), mecanismo de compensação entre bancos centrais, como exemplos que não funcionaram.

Em agosto de 2021, Guedes afirmou que uma moeda comum para o Mercosul permitiria maior integração e uma área de livre comércio, além de criar uma partição que poderia ser uma das “cinco ou seis moedas adequadas no mundo”.

Ontem, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, também esclareceu que a ideia de criar uma moeda comum para transações entre Brasil e Argentina nada tem a ver com a substituição de moedas nacionais. “É pela baixa conversibilidade do peso, e porque entendemos que é difícil aceitar o peso no comércio internacional hoje, que estamos considerando uma forma diferente de unidade de conta e meio de pagamento”, disse ele em um comunicado entrevista. da GloboNews.

Galípolo sublinhou que o objetivo da iniciativa não é ultrapassar o dólar como moeda internacional, acreditando que “parece não fazer sentido” restringir o comércio na região devido à política monetária dos Estados Unidos.

Haddad disse ainda que a integração dos países latino-americanos deveria ser “um pouco mais radical”, lembrando ainda que “o Mercosul é uma ótima iniciativa, mas acho que está na hora de ser mais ambicioso”. (Reuters)

Segundo Lula, os resultados do banco de fomento são importantes para garantir a liderança do Brasil | Fonte: Fernando Frazão/Agência Brasil

BNDES voltará a financiar países vizinhos

Após anos de proibição, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltará a financiar projetos de desenvolvimento e engenharia em países vizinhos, disse ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele fez a declaração acompanhado do presidente argentino, Alberto Fernández, durante encontro com empresários brasileiros e argentinos durante sua passagem por Buenos Aires.

Segundo Lula, os resultados do banco de fomento são importantes para garantir a liderança do Brasil no financiamento de grandes projetos e no desenvolvimento da América Latina. “Vou te dizer uma coisa. O BNDES vai refinanciar as relações comerciais no Brasil e refinanciar projetos de engenharia para ajudar as empresas brasileiras no exterior e ajudar os países vizinhos a se desenvolver e até vender os resultados desse enriquecimento para um país como o Brasil. O Brasil não pode ficar de fora. O Brasil não pode ficar pequeno”, declarou Lula.

No discurso, o presidente também defendeu que o BNDES estava tomando mais empréstimos. “Faz exatos quatro anos que o BNDES não toma dinheiro emprestado para o desenvolvimento, porque todo o dinheiro do BNDES é devolvido ao Tesouro, que quer receber um empréstimo. Então o Brasil também parou de crescer. O Brasil parou de crescer e o Brasil parou de compartilhar oportunidades de crescimento com outros países”, afirmou.

No governo anterior, o BNDES realizou verificações de crédito para os países latino-americanos na última década e publicou os resultados em uma página dedicada no web site da instituição. Os exames não apresentaram anormalidades.

relações bilaterais

Junto com Fernández, Lula destacou a importância das relações bilaterais entre Brasil e Argentina. O país é o terceiro maior destino das exportações brasileiras e o principal mercado da América Latina. Por sua vez, o Brasil é o país de onde os argentinos mais compram. O comércio está centrado na compra do trigo argentino pelo Brasil e na venda de automóveis e peças de automóveis por brasileiros a um país vizinho.

“A Argentina é o principal parceiro comercial do Brasil em toda a América Latina. Argentina e Brasil comercializaram mais que Brasil e Itália, mais que Brasil e Inglaterra, mais que Brasil e França, mais que Brasil e Rússia, mais que Brasil e Índia”, disse Lula.

Durante o evento, Lula disse que a posição da Argentina no comércio exterior deve ser valorizada. “A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Isso tem que ser apreciado. Isso só pode ser julgado não pelos presidentes, mas pelos empresários. Você é [os empresários] que sabem fazer negócios, que sabem negociar”, acrescentou o presidente brasileiro.

Do lado argentino, Alberto Fernández saudou a retomada das conversações de alto nível entre as duas nações. “O que estamos fazendo é fazer com que os vínculos entre Brasil e Argentina voltem a funcionar, vínculos que foram rompidos.”

Os dois presidentes também receberam um documento conjunto elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela União Industrial Argentina (UIA) com propostas para reativar as relações comerciais entre os dois países e com outros parceiros comerciais, especialmente o Mercosul. (ABr)

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