A tragédia do Capitólio completa um ano: o que mudou no turismo – 01.08.2023

Há um ano, o Brasil viu imagens chocantes de um enorme bloco caindo sobre barcos, matando 10 pessoas e ferindo outras 27 no Lago de Furnas, no Capitólio.

Desde então, o turismo native neste native, a cerca de 300 quilômetros de Belo Horizonte nunca foi o mesmo (e sim, isso é uma boa notícia).

Conhecido como Mar de Minas, o Lago de Furnas é o maior corpo d’água do estado, com mais de 1.400 km² e abrangendo 34 municípios, incluindo Capitólio.

Até o dia do acidente, 8 de janeiro de 2022, os passeios mais procurados eram os passeios de lancha entre as paredes do cânion, que surgiram com a criação da Usina Hidrelétrica de Furnas, inaugurada em 1963.

No entanto, agora passear lá é mais rígido.

As bóias de segurança perto das paredes do Capitólio agora impedem que os navios se aproximem

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Geologicamente, esse lugar é muito instável, mas com planejamento é possível manter a atração funcionando. Joana Sánchez, professora de geologia da Universidade Federal de Goiás

Para ela, o risco do Capitólio não period apenas geológico, mas também devido à superabundância de barcos a motor nessa área em constante transformação pure.

“[A segurança] Você tem que começar por quem administra a atração, não faz sentido ser apenas um turista de férias. É a gestão que precisa ficar atenta a esses riscos, mas sabemos que não será no curto prazo”, avalia Joana.

Joana Sánchez durante uma avaliação geológica no Capitólio - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Joana Sánchez durante uma pesquisa geológica no Capitólio

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

O repórter tentou contato com o atual secretário de Turismo de Capitólio, Lucas Arantes Barros, mas até o fechamento deste texto não havia como voltar atrás. O espaço está aberto para atualização.

Nosso Ouvi relatos de alguns hóspedes que estiveram lá recentemente.

o que dizem os turistas

“Nunca nos sentimos ameaçados. Hoje, a proteção é muito maior e não há mais abordagem [dos paredões]– conta Daniela Rauch, que passou o Réveillon no Capitólio com o namorado Filipe Padilha Rodrigues.

Casal Daniela Rauch e Filipe Padilha Rodrigues, recentemente, no Capitólio - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Casal Daniela Rauch e Filipe Padilha Rodrigues recentemente no Capitólio

Imagem: arquivo pessoal

Daniela conta que as aventuras de canyoning, como o rapel, estão suspensas desde o acidente do ano passado, mas, como o próprio casal lembra, as caminhadas em Capitólio não se limitam a navegar por cânions.

Há mil e uma coisas para fazer, como cachoeiras, tirolesas e passeios de quadriciclo. Há falta de publicidade para essas outras atividades. Daniel

Glácio Oliveira elogia o fechamento de atrações e atividades em dias de chuva.

Trabalhos de Avaliação Geológica no Capitólio - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

A visita começou em meados de março do ano passado

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

“No primeiro dia tentamos fazer um passeio de lancha que foi cancelado devido às tempestades. Conseguimos visitar apenas duas atrações”, conta Gláucio, paulistano de Ribeirão Preto, que viajou recentemente com a esposa e filhos de 6 meses e 3 anos.

Equipamentos, aprendizado e distância

Outra mudança que ele destaca é o uso de equipamentos de proteção que se tornaram obrigatórios desde o acidente, como capacete e colete salva-vidas.

“Fiquei muito tranquilo, senão não teria levado minha família para lá. Vale a visita”, aconselha Gláucio.

Gláucio Oliveira e sua família, recentemente no Capitólio - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Gláucio Oliveira e sua família, recentemente no Capitólio

Imagem: arquivo pessoal

Ele diz que ficou mais seguro porque acreditou que os pilotos de lanchas ficaram mais atentos às novas medidas, como a distância mínima até as paredes, indicada por uma barreira com bóias, próximo ao native do acidente.

Mas tudo isso é fruto do trabalho da equipe responsável pela Avaliação de Risco Geológico e Geotécnico da Barragem de Furnas, elaborada pela Funep (Fundação de Amparo à Pesquisa, Ensino e Desenvolvimento) Unesp.

Desde o acidente de 2022, nove geólogos, entre eles Joana Sánchez, trabalham em diretrizes para mitigar o risco geológico em Capitólio, incluindo o monitoramento diário das atividades na região.

Entre as medidas adotadas estão a obrigatoriedade do uso de equipamentos de segurança e o acesso de apenas um barco por vez, que agora não para perto dos paredões, mas contorna o lago e sai para a entrada de outra embarcação.

Trabalhos de Avaliação Geológica no Capitólio - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Geólogos fazem avaliações periódicas das paredes do cânion

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Joana refere ainda que os engenheiros que acompanharam o trabalho dos geólogos recomendaram a colocação de telas de proteção nas rochas para evitar novos deslizamentos. No entanto, ainda depende da licitação.

É necessário um uso mais sustentável do turismo [em Capitólio]não foi fácil no começo. Joana

Trabalhos de Avaliação Geológica no Capitólio - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Testes de parede também mostraram a necessidade de instalar telas de proteção

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

O geólogo acredita que o próximo passo será encaminhar esse estudo ao Ministério do Turismo com orientações para o uso turístico em destinos brasileiros com potencial geológico, como a avaliação de cinco anos de locais de menor risco, como a cachoeira da Chapada dos Veadeiros em Goiás.

“No caso de Capitólio, isso deve ser feito trimestralmente, com avaliação da quantidade de precipitação, do período de seca e da movimentação dos blocos e do grau de fissuração dos mesmos” – explica.

bacia hidrográfica

Como costuma acontecer em muitos setores da sociedade no país, a indústria do turismo parece apenas aprender com a tragédia.

E é impossível não perceber o acidente como um avanço no turismo nacional.

Como conta a professora Joana Sánchez, emblem após o acidente do Capitólio, a mesma equipe de geólogos foi chamada pelo Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha para avaliar riscos geológicos no arquipélago de Pernambuco.

Geóloga Joana Sánchez durante trabalho de limpeza em Fernando de Noronha – Ion David/Divulgação – Ion David/Divulgação

Geóloga Joana Sánchez fazendo limpeza em Fernando de Noronha

Foto: Ion David/Divulgação

O resultado foi um trabalho minucioso que incluiu intervenções como a remoção de pedras e blocos soltos nos caminhos de acesso às baías dos Porcos e dos Abreus e a limpeza das escadas vertiginosas que levam à Praia do Sancho.

Após o acidente, notamos mudanças em vários destinos no Brasil. Houve um incentivo para fazer esta pesquisa [geológicos]. Joana

O trabalho realizado em Capitólio, coordenado pelo presidente da Federação Brasileira dos Geólogos, Fábio Reis, é de extrema importância para a orientação turística em outros locais desse tipo no Brasil, como a Serra da Canastra (MG), Cânions do Xingó (SE ) e Cachoeiras Presidente Figueiredo (AM ).

“Até agora todos aceitaram as nossas sugestões, mas não temos poder para legislar”, diz Joana.

Geóloga Joana Sánchez durante trabalho de limpeza em Fernando de Noronha – Ion David/Divulgação – Ion David/Divulgação

Obra semelhante a Capitólio foi realizada em Fernando de Noronha

Foto: Ion David/Divulgação

economia abalada

Segundo a Agência Minas, do last de dezembro ao início de janeiro de 2023, o Capitólio registrou uma taxa de ocupação de 90%.

Para este portal de informações oficial do governo do estado, os números são baseados na implementação do plano “Reviva Capitólio – Viva o Mar de Minas”, que contempla cerca de 80 medidas de segurança nas áreas de ecoturismo e passeios marítimos.

Mas durante o trabalho de campo na região, Joana percebeu que ainda há muito a ser feito.

“A população ainda está muito assustada. A economia native diminuiu significativamente e uma melhor publicidade será necessária [do destino]”, indica.

Como lembra a turista Daniela Rauch, a indústria do turismo no Capitólio sofreu mais economicamente com o acidente de 2022 do que durante os meses de fechamento devido à pandemia de coronavírus.

Daniela Rauch, em Capitólio - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal

Daniel Rauch no Capitólio

Imagem: arquivo pessoal

Desenvolvido pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, o plano de redestinação propõe “maior agilidade no atendimento emergencial à população”.

Entre as medidas também estão parcerias com a Polícia Militar de Minas Gerais, Marinha, Polícia Rodoviária Federal, prefeituras e comunidades locais de Capitólio, São José da Barra e São João Batista da Glória.

Apesar disso, a visita ao Capitólio ainda é uma preocupação devido aos diques, já que é conhecida a elevação brusca do nível das águas do rio, e a passagem por corredores rochosos mais estreitos.

Bóias de segurança junto às paredes do Capitólio já impedem a aproximação de navios - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal - Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

Mudanças na rotina dos visitantes e dos que trabalham nas paredes

Foto: Joana Sánchez/Arquivo Pessoal

“Para chegar ao Vale dos Tucanos é preciso passar por um trecho com paredes bem apertadas. É lindo, mas não encontrei um ambiente tão seguro quanto nos cânions. Dá para ficar um pouquinho atrás”, descreve Matheus Padilha Vinhal, que passou o last de ano no Capitólio com outros três amigos.

Sobre a famosa navegação pelo cânion, esse mineiro de Uberlândia conta que a visita foi muito rápida, “só deu tempo de tirar fotos”, e não é mais permitido nadar.

“É um espetáculo da natureza que recomendo e podemos curtir com segurança o passeio neste trecho” – finaliza.

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