Brasil vê ‘fuga de cérebros’ para a Alemanha – DW – 18/03/2022

Glauco Vaz Feijó é um daqueles casos em que objeto e sujeito se confundem. Isso porque o historiador e cientista social, ao esmiuçar as estatísticas da imigração brasileira para a Alemanha, transformou sua própria realidade em objeto de pesquisa: esta é, afinal, a terceira vez que ele deixa o Brasil rumo ao país europeu.

Ele acaba de lançar o livro Retratos do Brasil na Alemanha – 30 anos de imigração, um levantamento de dados estatísticos e possíveis explicações sobre o fenômeno que leva os brasileiros a se fixarem no país. Na análise dos dados, enquanto o cenário reflete o movimento histórico da diáspora brasileira nos últimos anos, o perfil de quem sai do Brasil para tentar uma nova vida na Alemanha passa por uma transformação relevante.

“A taxa de feminização é muito alta, o que corresponde a outros países em geral. geralmente chamada de ‘imigração qualificada'”, explica ele, que é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília e professor visitante da Universidade de Tübingen.

Ou seja, se números recentes revelam que a grande maioria dos brasileiros que se mudaram para a Alemanha o fez por “reagrupamento acquainted” – e proporcionalmente se destacaram as brasileiras casadas com alemães -, o crescimento do número de solteiros e solteiras, ou mesmo famílias inteiras se mudando – geralmente pessoas altamente educadas que conseguem empregos no país – mostram que gênero não é mais uma diferença.

Segundo dados oficiais sobre brasileiros devidamente registrados no país, disponibilizados pelo Ministério de Estatística da Alemanha (Destatis), se em 2005 havia um brasileiro para cada três brasileiras residentes na Alemanha, os últimos dados de 2020 indicam que há 17.670 homens e 31.825 mulheres – ou seja, a proporção masculina saltou de 25% para quase 36% do whole.

Para comprovar a diferença de perfil, Feijó também consultou dados sobre estado civil no Destatis. Em 2005, 66% dos homens brasileiros que viviam na Alemanha eram solteiros – agora esse número caiu para 56%. Quanto às mulheres, as solteiras passaram de 29% para 34% no mesmo período – e entre as casadas, quase 80% estavam com alemães há 15 anos, proporção que agora é de 50%.

No geral, a população brasileira registrada oficialmente na Alemanha é mais “solteira” – homens e mulheres casados ​​eram 61% em 2005 e hoje são 56%. Tudo isso sugere, segundo os especialistas, que a migração foi motivada muito mais por outros fatores do que a chamada reunificação acquainted.

Os pesquisadores da imigração entendem que quanto maior a igualdade de gênero no fenômeno, maior a indicação de que essa migração ocorre devido a fatores profissionais altamente qualificados, onde ser homem ou mulher tende a ter pouca importância e em teoria a competência profissional, intelectual ou acadêmica isso conta.

Por razões históricas, a predominância de mulheres imigrantes tende a indicar que o principal fator é o casamento com nativas; quando o número é maior entre os homens – como acontece com os brasileiros no Japão, por exemplo – é sinal de que o país precisa de mais mão de obra.

Alemanha como destino

“A escolha da Alemanha como destino parece estar relacionada às condições próprias do país, como a qualidade de vida world, a estabilidade econômica, a busca por profissionais qualificados em uma economia complexa, a cobertura de direitos e o fato de a país pratica um dos melhores salários mínimos da UE”, diz o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ele considera que essa mudança no perfil do migrante brasileiro acaba respondendo “às demandas do país, o que resulta em uma adequação conjuntural”.

“A falta de mão de obra qualificada, decorrente da transformação demográfica na Alemanha, gera um cenário favorável para os jovens brasileiros, com nível superior, mestrado e doutorado. A expectativa é que haja uma diminuição do número de pessoas em idade produtiva, o que torna os negócios e a expansão da economia impossíveis. Aqui, apesar do envelhecimento da população, a economia não cresce e o trabalho qualificado diminui devido à perda de complexidade da economia”, analisa Baptistini.

Ele lembra ainda que a lei de imigração de mão de obra especializada, em vigor desde março de 2020, é um instrumento que facilita o acesso ao mercado de trabalho alemão para jovens estrangeiros qualificados de até 25 anos.

“Em um mundo cheio de barreiras para pessoas, mas não para dinheiro e bens, a lei alemã, herdada do governo de Angela Merkel, representa uma estranha abertura: resolve os problemas da economia alemã no curto e médio prazo, mas agrava os problemas de países como o Brasil, que estão vendo a saída dos mais jovens e qualificados de sua população”, acrescenta.

Para a historiadora Renata Geraissati Castro de Almeida, pesquisadora de imigração da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, esse contexto é popularmente chamado de “fuga de cérebros”.

O termo foi cunhado em 1963 pela instituição acadêmica britânica Royal Society para se referir à migração de cientistas ingleses para os Estados Unidos. – Com o passar do tempo, serviu cada vez mais de marco para a imigração de pesquisadores de países em desenvolvimento para países desenvolvidos, destaca.

Geraissati acredita que a situação deve se tornar ainda mais aguda para o Brasil. “Quando observamos que não há um projeto governamental de investimento em ciência e tecnologia, mas uma constante desvalorização da atuação desses profissionais, somado ao fato de que nos últimos anos temos enfrentado um corte cada vez maior de verbas para pesquisa, a evasão de ‘cérebros’ ‘ tende a crescer sem trazer nenhum tipo de benefício ao país, pelo contrário, comprometerá nossa capacidade de recuperação no curto e longo prazo, tornando nossa posição em um cenário world cada vez mais insignificante”, afirma.

E a Alemanha deve continuar sendo um polo atrativo para brasileiros em busca de melhores condições. “Acredito que a grande oferta de oportunidades de trabalho e o fato de o país ser referência em diversos setores industriais, como o farmacêutico, vinculados às novas leis, facilitam o preenchimento de vagas por profissionais qualificados”, diz o historiador . . “Aspectos relacionados à qualidade de vida, ou seja, segurança pública, estabilidade econômica, educação e sistema de saúde tornam o país um destino atraente para imigrantes de todo o mundo”.

Descoberta de uma nova vocação

O advogado Danilo Ferreira dos Santos, 34 anos, é um exemplo concreto desse fenômeno. Ele nasceu em São Paulo e diz que nunca saiu do Brasil até os 32 anos. Foi então convidado a estudar na Humboldt College, devido a um projeto de pesquisa sobre política habitacional.

“Cheguei a Berlim em junho de 2019. Primeiro precisava aprimorar meus conhecimentos de alemão antes de iniciar meus estudos”, conta. Para praticar o idioma, decidiu fazer trabalho voluntário na cidade de Duisburg, ensinando matemática para crianças refugiadas. “Foi a melhor experiência da minha vida”, diz.

Lá ele descobriu uma nova vocação – trabalhar com crianças. “Agora trabalho com pedagogia”, relata. “A vida me reserva algo diferente do que planejei. E provavelmente não vou mais morar no Brasil.” Atualmente coordena projetos sociais na área de educação entre Alemanha e Brasil.

Jacqueline Fiuza Regis, cientista política e estudiosa da literatura, casada com o pesquisador Feijó, é um retrato desse desenvolvimento da qualificação. Está em sua quarta temporada na Alemanha. Na primeira, em 1995, trabalhou como au pair em uma casa de família em Stuttgart. Em 2002, quando decidiu tentar a sorte mais uma vez para aprimorar seus conhecimentos da língua alemã, trabalhou como garçonete, assistente de pesquisa universitária e, finalmente, professora de português para estrangeiros.

Jacqueline está em sua quarta temporada na AlemanhaFoto: privada

Em 2014 regressou à Alemanha, onde concluiu partes do seu doutoramento na Universidade de Jena. “Passou um ano e vim com minha família. Minha colega de quarto e nossas duas filhas”, conta. Agora eles moram em Tübingen desde 2019, quando se mudaram, com a terceira filha. Regis é professor em uma escola native. Ou seja: teve empregos desqualificados, foi pesquisadora acadêmica e agora tem atividade intelectual.

Base de dados

Vale ressaltar – Feijó aponta isso tanto em seu livro quanto na entrevista concedida à DW Brasil – que existem três bases de dados para tentar mensurar o número de brasileiros que vivem na Alemanha. O Destatis, órgão estatístico oficial, apresenta apenas os brasileiros devidamente registrados como tal: atualmente 49.280.

“As microcontagens anuais trazem cerca de 98 mil. Isso porque são baseadas em estimativas amostrais e também incluem brasileiros registrados com outra nacionalidade, como os com dupla nacionalidade”, explica o pesquisador.

Por fim, há dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que no último censo apontou que havia 144.120 brasileiros morando na Alemanha, dados que colocam o país em oitavo lugar entre os que mais recebem residentes do Brasil em todo o país. mundo. Esses números são produzidos com base em estimativas dos consulados e não discriminam entre os devidamente cadastrados e os que estão em situação irregular, por exemplo.

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