Empresas brasileiras empregam quase 30% dos estrangeiros em Portugal

Vicente Nunes – Correspondente

postado em 01/08/2023 03:55


(crédito: Arquivo pessoal)

Lisboa – As arquitetas Thayanna Botelho e Rebeca Bitencourt decidiram ampliar o quadro de funcionários da Nest, empresa que abriram em Portugal há pouco mais de dois anos. A demanda por projetos – foram mais de 40 nesse curto período – é tanta que o atual grupo de colaboradores, cinco, precisa ser reforçado rapidamente. Os dois novos cargos devem ser preenchidos preferencialmente por mulheres. Assim como os arquitetos, os empresários brasileiros que decidiram fincar raízes do outro lado do Atlântico têm feito a diferença para manter aquecido o mercado de trabalho do país europeu. Mais do que isso, têm garantido oportunidades a profissionais estrangeiros que decidiram viver em território português.

Dados do Observatório das Migrações, do Alto Comissariado para as Migrações, indicam que as empresas controladas por brasileiros em Portugal se tornaram as mais importantes empregadoras de imigrantes no país. Do whole de empregos de estrangeiros, 26,7% são realizados por empresários do Brasil. As chinesas aparecem na segunda posição, garantindo 16% das vagas. O impacto destes postos de trabalho tem sido tão forte na economia portuguesa que o desemprego é de 6,1%, o nível mais baixo em duas décadas. Não apenas. Os trabalhadores estrangeiros tornaram-se pilares da sustentabilidade da Segurança Social, a Segurança Social do país. No ano passado, os imigrantes despejaram € 1,2 bilhão (R$ 6,6 bilhões) no caixa do sistema.

A participação dos imigrantes no mercado de trabalho em Portugal vai aumentar, acredita Jorge Fonseca, especialista em recolocação profissional para gestores com mais de 50 anos. Para ele, mesmo com uma economia pequena, o país português, por questões demográficas, tem precisado cada vez mais de mão de obra. A população portuguesa envelheceu e já não consegue satisfazer as necessidades de setores básicos como o comércio, a hotelaria e a construção civil. O brasileiro, pela linguagem simples, embora a cultura seja diferente, tem aproveitado as oportunidades como ninguém, tanto do ponto de vista de empreendedores quanto de quem busca empregos que lhes garantam uma vida melhor.

Fonseca acredita que a procura de profissionais estrangeiros mais qualificados irá aumentar ao longo do tempo em Portugal. Os primeiros sinais têm sido observados na área tecnológica, com empresas multinacionais a instalarem centros de operações em várias regiões portuguesas. Ele destaca que também estão chegando ao país centros de serviços compartilhados, como finanças e recursos humanos, além de startups e incubadoras de empresas. É nestes segmentos que procura substituir trabalhadores seniores que, após carreiras de sucesso, decidiram dar um novo rumo à sua vida profissional.


economia de portugal

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(foto: editor de arte)

riqueza da diversidade

Chef e um dos sócios do badalado restaurante Bono, o brasiliense Robson Oliveira tem oito profissionais sob seu comando, incluindo um português. “A diversidade é muito boa para os negócios, enriquece o ambiente. Os estrangeiros são curiosos, gostam de experimentar coisas novas, e isso se reflete muito bem no trabalho que fazem”, destaca. Ele destaca que os principais fatores para a contratação de colaboradores são competência, motivação e disponibilidade para o trabalho. “Do nosso lado, por meio de contratos formais, damos toda a segurança que esses profissionais precisam para morar em outro país. Ser imigrante não é fácil, então faz muita diferença ter tudo legalizado”, acrescenta.

Oliveira conta que recebe muitos currículos de estrangeiros, principalmente de trabalhadores da América do Sul. Ele já conversou com algumas pessoas para montar um banco de talentos. O chef está procurando um bom lugar para montar seu novo restaurante. Como ele quer um native maior, vai precisar de um grupo de profissionais maior que o de Bonos. “Quero que seja uma equipe diversificada, bem cosmopolita”, destaca, que tem um italiano como sócio na empreitada. – Como falo com muitos donos de restaurante, também indicamos profissionais para quem contrata, diz.

Proprietárias da Nest, as arquitetas Thayanna e Rebeca destacam que, antes de abrirem o próprio negócio, trabalharam em empresas em Portugal. Isso foi importante para a sua fixação e crescimento no país onde escolheram viver. Eles lembram emblem de trabalhar na área de formação, mas há muitos estrangeiros, principalmente brasileiros, que, para começar uma nova vida, abrem mão de altos cargos no Brasil para ocupar cargos com salários menores e em outras áreas. “É um recomeço, mas também uma preparação para saltos maiores”, enfatiza Thayanna.

As empresárias citam como exemplo uma brasileira formada em engenharia civil que hoje faz faxina em casa, mas viu nesse tipo de trabalho uma excelente fonte de renda. Tanto que abre uma empresa para oferecer mão de obra qualificada. “Existem oportunidades para quem quer trabalhar”, aponta Rebeca, que vê no brasileiro uma forte disposição para realizar as mais diversas tarefas. “Na Nest, não é requisito ser brasileiro para ser contratado, mas se for, é um ponto a mais. Por tudo que vivemos, nossos compatriotas não fogem da luta”, completa.

Dono da Cascais Mediação Imobiliária e do Café e Restaurante Pérola, ambos em Cascais, uma das regiões mais caras de Portugal, José Xavier tem sob seu comando seis profissionais. “Todos os brasileiros”, enfatiza. Para ele, existem pessoas mais fáceis de lidar, fáceis de vender e de se relacionar com o público. “Depois de contratados, todos passam por treinamento. Por mais competentes que sejam, é importante que estejam adequadamente preparados para as funções que irão desempenhar”, acrescenta, mas ressalta que não é fácil repor pessoal. quando ocorre uma vaga, é feita uma abertura. “Há acesso à mão de obra, mas nem todos atendem às exigências das empresas.”


Facilidades na Lei

A falta de profissionais é perceptível até em funções básicas, reconhece Xavier. Não é à toa que, com o apoio da Assembleia da República, o governo português promoveu uma série de flexibilizações nas leis de imigração. O último deles permite que cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo o Brasil, transitem pelo território português com um visto especial, que lhes permite procurar emprego ao longo de seis meses, desde que comprovem o sustento durante este período período . Foi a forma que se encontrou para atender os empresários do varejo, turismo e agropecuária. É um instrumento para que quem ingresse no mercado de trabalho português tenha garantias legais.

O recrutador Jorge Fonseca acredita que o próximo passo será acabar com o excesso de burocracia que dificulta a entrada de profissionais de saúde em Portugal, como médicos. Os brasileiros são as principais vítimas desse processo, apoiado pelo corporativismo dos sindicatos do setor. Para que um médico brasileiro consiga uma autorização de trabalho no país europeu, ele deve passar por um longo programa de avaliação e validação do diploma. Há médicos que aguardam o sinal verde há mais de seis anos, embora o sistema público de saúde esteja à beira do colapso por falta de pessoal.

José Xavier acompanha-o de perto. A sua mulher, que é farmacêutica, nunca poderia exercer a sua profissão em países portugueses. Para contornar a burocracia, ela optou por fazer o doutorado em Portugal. Assim que você terminar o curso, você reconhecerá todo o seu caminho. “Estamos a falar de profissionais qualificados que podem dar um grande contributo ao sistema de saúde português. Portugal é um país envelhecido e complexo”, acrescenta Jorge Fonseca.


terreno em reforma

O Observatório das Migrações aponta que entre os quase 700 mil estrangeiros que vivem legalmente em Portugal, os homens são maioria – no caso dos brasileiros, que constituem um terço do grupo de imigrantes, as mulheres são 54,7%. Do whole, 60,4% têm entre 20 e 49 anos, o que significa que estão em plena idade produtiva. Em 2021, os estrangeiros representaram 13,5% dos nascimentos no país. Este é um contingente que, ao longo do tempo, irá alterar a estrutura da sociedade portuguesa. “Estamos perante um cenário irreversível”, diz Miguel Relvas, ex-ministro dos Assuntos Parlamentares.

Além das oportunidades de trabalho, muitos estrangeiros residentes em Portugal foram atraídos pelas boas condições de vida do país e começaram com certeza. Funcionário do escritório Martins Castro, o advogado Luís Cláudio Almeida, 30, de Fortaleza, conta que decidiu trabalhar no país com o objetivo de ampliar os conhecimentos e internacionalizar a carreira. Ele, que migrou em maio de 2022, trabalha com direito de nacionalidade e imigração, com foco no público latino-americano, e está cursando mestrado em direito comercial internacional na Universidade de Lisboa.

Almeida lembra que assim que desembarcou em território português, ingressou na Ordem dos Advogados Portugueses e começou a procurar emprego. Para ele, o aprendizado com a primeira experiência internacional, quando fez um intercâmbio na Universidade de Salamanca, na Espanha, em 2017, favoreceu sua entrada no mercado português. “O domínio da língua espanhola e o conhecimento da legislação comunitária ajudaram-me, porque é comum as vagas por aqui exigirem fluência noutras línguas. Portugal é um país dinâmico, inserido num contexto international, aberto a profissionais estrangeiros.”, ele aponta..

Também advogada, Patrícia Barros, 47, gaúcha, decidiu se mudar para Portugal em julho de 2021 para aprofundar seus estudos em direitos humanos e abrir portas na UE. Para ela, a experiência, além de permitir o contato constante com pessoas de diferentes nacionalidades, favoreceu seu desenvolvimento profissional e pessoal e agregou conhecimento. “Viver em Portugal ampliou minha visão de mundo”, destaca.

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