Pessoas com deficiência querem produtos inclusivos – e a indústria da beleza precisa ouvir | Inventar

“Para mim, a maquiagem é como uma luz, um refletor que destaca meu rosto”, revela Marina Melo durante uma conversa por vídeo. Aos 19 anos, a carioca tem quase 43 mil seguidores no Instagram e 35 mil no TikTok (@marimeloabreu), onde posta vídeos dela mesma testando produtos e maquiando para diversas ocasiões. No entanto, as análises têm um critério: elas também avaliam o preço dos cosméticos. Marina tem atrofia muscular espinhal (AME), uma doença genética rara, que tem como um dos sintomas a fraqueza muscular. No caso dela, restringe seus movimentos e dificulta gestos simples. “Não tenho força para apertar bisnagas e pumps. Delineador, é melhor que seja caneta e não abro nada que tenha que passar”, diz. Marina é uma das 17,3 milhões de pessoas com deficiência acima de dois anos no Brasil – cerca de 8,4% da população – apontada pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) em 2019.

Para Marina, como a maioria das adolescentes, a maquiagem foi uma ferramenta de autodescoberta e autoestima. Aos 11 anos, ela já passava horas no YouTube assistindo influenciadores. “Tudo o que sei sobre beleza, aprendi fazendo para alguém e reproduzi do meu jeito. É uma das poucas coisas que consigo fazer quase sozinha”, diz. O que Marina não encontrava de jeito nenhum period representatividade, alguém como ela para responder às suas perguntas. “Quero ser o que Marina não teve quando criança”, pensou em 2020 quando fez seu primeiro vídeo para o Instagram.

Outras mulheres com deficiência da mesma geração acompanham Marina nessa revolução que começa a borbulhar: usar o alcance de seus vídeos para trazer mais pessoas para a conversa. “As pessoas não pensam nos outros e isso contribui para o atraso do setor”, acredita Ana Clara Moniz, 22, que também tem AME. “A falta de convivência com pessoas com deficiência limita novas perspectivas. Hoje meus amigos, depois de anos ao meu lado, sabem se tem vaga. Encorajo o envolvimento com esse tópico em minhas redes e recebo muitas mensagens de pessoas que dizem: ‘Nunca pensei nisso!’ É muito bom ver essa virada de chave”, diz a jornalista, que dá palestras e tem 62 mil seguidores no Instagram (@_anaclarabm) e 24 mil no TikTok (@anaclaramoniz).

Como não havia mais gente como ela por perto, Ana Clara também usou a web na adolescência. Ele descobriu o movimento corporal positivo e renunciou ao relacionamento com seu corpo. Na mesma plataforma, ganhou reconhecimento ao mostrar uma maquiagem sem esforço, tudo feito com técnicas que ele aperfeiçoou.

“Quando quero um produto, não busco a marca nem a qualidade, vou pela embalagem. Se só tem uma opção para mim, tem que ser essa”, diz ela, que prefere comprar on-line . “É muito comum eu chegar em uma loja que fala que é acessível e tem degrau, então evito. Perco a possibilidade de experimentar antes de comprar on-line, mas compenso lendo as avaliações e perguntando aos amigos sobre recomendações”, descreve ele. Também requer uma certa dose de improvisação após as compras. “Na maioria das vezes, o que acontece é que adaptamos as coisas. Para maquiar a parte de baixo do rosto, tiro as cerdas do pincel e uso sem o cabo”, exemplifica a jornalista.

Okay, mas o que significa que o produto é acessível? Ana não poderia responder sozinha porque não há uma resposta única: as necessidades variam. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, são pequenas mudanças que permitem a mais pessoas usufruir dos cosméticos que já existem no mercado.

O primeiro fator é a embalagem, especialmente o peso e a forma. Floreiras de vidro ou paletes pesadas são um obstáculo para pessoas com mobilidade reduzida. O mecanismo de abertura é outro ponto de atenção: quanto mais complicado, pior. Rímel, sombras e glosses com tampa de rosca texturizada reduzem o aperto das mãos e dos dentes ao tentar abri-los. No palco menos acessível estão os pumps, comuns em produtos para cuidados com a pele, assim como sprays e sprays.

Muito também depende da aplicação. “Quando falamos de pincéis, o splendid seria que tivessem comprimentos de cabo diferentes, porque não consigo alcançar a testa, por exemplo. Também é importante que tenham boas cerdas que espalhem o produto com facilidade, para que o movimento não atrapalhe tem que ser repetido muitas vezes”, diz Ana. Outros ajustes têm a ver com a textura dos cosméticos. A palavra de ordem é: deve ser fácil de aplicar e fácil de remover. Os mais pedidos são as maquiagens que não secam rapidamente e não borra.Produtos líquidos também são preferidos aos cremes.O lápis de olhos com ponta pincel (em vez de feltro) é um aliado porque não endurece imediatamente e distribui o produto uniformemente na primeira passagem.

O futuro deve ser agora

Dado que existem várias opções de customização para os produtos existentes, nem todas caras, o que ainda falta para termos opções?

“Há um equívoco de que você tem que fazer maquiagem para um grande grupo homogêneo ou para nichos, mas essa opção é exclusiva. Como evitar isso? Incentive todos a participarem do processo de criação.”

Quem se destaca é a maquiadora Terri Bryant em entrevista à Glamour. A norte-americana fundadora da Information Magnificence é uma das referências nesta área ainda por explorar. Durante um dia de trabalho, Terri percebeu algo estranho em seus movimentos. O diagnóstico de Parkinson lhe causou medo: ela terá que deixar a carreira? Ela recusou. Durante dois anos e meio, uma equipe de engenheiros e designers utilizou os fundamentos do Desenho Common, um design abrangente no desenvolvimento de produtos, para construir uma linha de cosméticos testada por 200 usuários e com centenas de mudanças no processo.

“Não existe jeito certo. Fazemos produtos que não apenas reconhecem a importância de uma comunidade diversificada, mas valorizam os indivíduos que a compõem”, diz ela, que no ano passado convidou a atriz Selma Blair, diagnosticada com esclerose múltipla, para dirigir. Guia Criativo.

Entre as criações de Terri está uma ferramenta que auxilia no desenho, a varinha guia. É como um pincel, mas em vez de cerdas, a ponta tem um gancho de silicone. É anatômico e se adapta à linha dos cílios aplicando-o e você pode puxá-lo na ponta do gatinho.

“Recebi uma mensagem de uma juíza aposentada com doença degenerativa. Ela adorava maquiagem, qualidade tão importante quanto a profissão. Porém, ela achava que nunca mais conseguiria fazer delineador. Quando usou nossos produtos, ela escreveu para mim dizendo que ela restaurou parte dela uma vida que ele pensava ter perdido para sempre. Agradeço a todos que compartilham a experiência. O progresso não tem ponto last, é constante”, enfatiza Terri.

A Kohl Kreatives, especialista em acessórios cosméticos para pessoas com problemas motores, também merece destaque no exterior. A marca britânica, fundada por Trish Daswaney, oferece pincéis flexíveis que evitam que a usuária machuque o rosto ao tremer. Também possuem barras anatômicas e outras quadradas, aumentando a aderência e a estabilidade.

Outra marca que fez um esforço semelhante – e recentemente desembarcou no Brasil – é a Uncommon Magnificence, da atriz e cantora Selena Gomez, que já revelou ter lúpus, uma doença autoimune que causa fraqueza muscular. Alguns de seus produtos, como o iluminador, são desenhados para se assemelhar a um dedo, tornando a aplicação bastante intuitiva. As tampas em forma de bola também favorecem a independência das pessoas com mobilidade reduzida na hora de aparafusar. A paleta é arredondada e fechada com imã, que quase não exige esforço na hora de abrir.

Por aqui, as iniciativas nacionais são mais raras. O Grupo Boticário, em colaboração com o centro de inovação CESAR, anunciou um Batom Inteligente que usaria inteligência synthetic para distinguir a pele dos lábios e evitar manchas durante a aplicação. Após seis anos na fase de pesquisa e desenvolvimento, os consumidores devem começar a testá-lo em breve, disse o grupo recentemente.

Beleza e disponibilidade — Foto de Rayssa Lima/Glamour Brasil

A inovação mora nos detalhes

A cearense Themis Briand sempre foi uma entusiasta da maquiagem até ser incentivada a reformular suas técnicas para ajudar uma amiga de infância, Thais, que tem amaurose congênita de Leber, doença que leva à perda progressiva da visão.

“Eu maquiei ela durante a viagem e ela se sentiu bem. Mas quando quis experimentar ela mesma não encontrou nada na web que explicasse como fazer”, lembra Themis. “Comecei do básico: quais são as texturas e formas das embalagens, como encontrar as coisas individuais, como direcionar e onde colocar o pincel, como controlar quanto produto foi aplicado. Criamos um protocolo juntos. Em o começo eu narrei e ela fez, depois eu corrigi, que não deu certo”, lembra.

O resultado foi chamado de Beleza para todos e foi um sucesso. “A notícia que recebi só me deu ainda mais certeza de que tem muita gente desamparada por aí”, argumenta. Themis deu dicas on-line, foi convidada para uma edição do TED e ainda lançou uma linha de batons acessíveis com a marca Lab You, também de Fortaleza.

A coleção contou com algumas especificidades, como textura que facilita a aplicação e QR code direto no frasco. “Quando a pessoa passa o celular ali, ela ouve uma descrição da percepção da cor. O vermelho é horny, para o dia em que você quer ser mais ousada. O rosa é suave”, diz Thalita Herculano, sócia-fundadora do Lab You. . Os batons foram descontinuados durante a pandemia devido à baixa procura devido ao isolamento social. Apesar do alcance reduzido da primeira tentativa, Themis não pensa em parar. Ela estava procurando por grandes marcas que queiram estabelecer novas parcerias.

“São detalhes que não demandam alto investimento, mas afetam a vida de muita gente”.

As inovações em muitos casos (e elas provam isso) estão apenas propondo uma nova solução para um velho problema. E para isso é necessário coletar opiniões diferentes. Foi o que aprendeu o maquiador e diretor de arte paulistano Jacques Janine Chloé Gaya. Em 2015, recebeu um pedido da Laramara — Associação Brasileira de Apoio ao Deficiente Visible para criar um curso de maquiagem para deficientes visuais. Mais de 80 alunos já concluíram a atividade. Em uma das edições de Chloé, ela idealizou o curso como um curso profissionalizante, ou seja, mulheres que iam para lá como maquiadoras. “Foram anos com aulas diferentes e muito aprendizado. Tive ainda mais certeza de que a beleza é um ritual, não apenas um recurso visible. Tem a ver com entender quem somos e como gostamos de nos apresentar”, diz Chloé . .

Um dos destaques do método de Themis e Chloé é a atividade de autorreconhecimento do rosto, em que ensinam onde fica o olho côncavo, como acompanhar a mandíbula, o tamanho de cada peça. Os dedos são um suporte para localizar, por exemplo, os contornos dos lábios, enquanto a outra mão aplica o batom. A dica é manter os produtos em uma sequência lógica e se possível identificá-los de alguma forma tátil, com diferentes texturas.

“Muitas pessoas perdem a visão durante a vida, por isso não aprendem o braile. Por isso a audiodescrição acaba sendo mais sugestiva”, explica Themis. Na casa da advogada Amanda Ferretti (33), dois batons sempre precisam ser devolvidos à caixa. É a única maneira de o baiano, que é deficiente visible, perceber a diferença de tons próximos.

“A maquiagem é feita de cores, então a descrição delas é elementary. Já existe um recurso no celular que identifica as cores das roupas, o que facilita a combinação sem se preocupar em errar. Ainda é necessário na maquiagem, “, defende ela. “A beleza é algo muito pessoal e os ajustes permitiriam que todos tivessem acesso aos produtos, mas acho que ainda está arraigado na sociedade que as pessoas com deficiência são deixadas de lado. Não conseguem entender que são pessoas produtivas com autonomia”, argumenta.

Para essa geração de jovens, os dias do preconceito estão contados, pois é um mundo pensado apenas para uma parcela da população. “A maquiagem mudou minha vida e quero isso para as outras também”, diz Marina. Terri concorda que a mudança está acontecendo. “Espero que toda a indústria da beleza se comprometa com a inclusão e siga por esse caminho com a intenção de realmente mudar o cenário”, finaliza.

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