TURISMO RELIGIOSO E DE FÉ – Arquidiocese de Vitória

Estão em curso as férias que, para além de serem um descanso do trabalho durante todo o ano, permitem-lhe realizar as suas viagens de sonho. Num país com uma população marcadamente religiosa, um caminho que tem crescido muito ao longo dos anos é o que leva a locais religiosos. Também deve ser notado que o “efeito Francisco” triplicou o número de pessoas em St. Pedro em Roma. Buscam-se, portanto, não apenas lugares sagrados, mas também encontros durante celebrações solenes com alguns líderes religiosos, como o Papa Francisco. No Brasil, três festas marianas (Círio de Nazaré, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Penha) são momentos que atraem milhares de romeiros.

Estamos enfrentando o inesperado renascimento formas tradicionais de turismo, com cada vez mais adeptos a percorrerem rotas e destinos icónicos. O número de participantes em audiências e cerimônias religiosas aumentou significativamente na Santa Sé, os peregrinos vêm de todo o mundo. Estima-se que 300 a 330 milhões de pessoas façam essas viagens anualmente, movimentando cerca de US$ 18 bilhões. Portanto, fica claro que se trata de um grande movimento de pessoas e dinheiro.

Estamos diante das maiores manifestações culturais da história da humanidade que se enquadram no âmbito da religião. Todos preservam os passos de templos, catedrais, espaços sagrados e imagens. De uma pequena dimensão de expressão religiosa, atinge o seu clímax com milhares de visitantes. Grandes religiões deixaram vestígios culturais ao longo da história nos lugares mais remotos. Assim, podemos admirar as catedrais medievais da Europa, mas como não nos emocionar com os templos budistas, os templos hindus, as mesquitas islâmicas, o Muro das Lamentações dos judeus em Jerusalém? Pela amplitude deste tema, nos manteremos em um contexto cristão e principalmente católico em nossa abordagem.

A CNBB já organizou uma pastoral especial para o mundo do turismo, incluindo o turismo religioso, para ajudar as pessoas a descobrirem a presença de Deus na beleza da criação e nas manifestações culturais e religiosas. Apresenta esse movimento, que tem se desenvolvido muito no mundo católico, como forma de troca de experiências e inserção consistente da comunidade originária na perspectiva de uma sociedade justa e solidária.

O turismo religioso não são apenas longas viagens entre continentes, mas o conjunto das peregrinações e suas experiências de fé, peregrinações, viagens para cumprir promessas feitas no âmbito da piedade common, visitar lugares sagrados e templos.

Por que esse movimento de pessoas no turismo? Não devemos cair na visão simplista de reduzir tudo a um problema de mercado. Sabemos que esse mercado está movimentando fortunas ao redor do mundo, mas não estamos isentos de uma análise mais aprofundada sobre esse assunto. Existem dois elementos essenciais em todas as religiões: um lugar sagrado onde a comunidade dos crentes é celebrada e um tempo sagrado de adoração, oração e diversão. O secularismo chegou a invalidar esses dois pilares da experiência religiosa das pessoas, a ponto de anular a santidade do lugar e do tempo.

Desta forma, sempre haverá um desejo na fé ou na experiência religiosa das pessoas de ir a algum lugar sagrado ou de participar de um tempo sagrado na forma de uma festa ou celebração. Vale ressaltar que esse caminho é muito ecumênico. Por exemplo, qualquer um pode visitar a estátua do Buda em Ibiraçu sem ser budista, ou ir ao Mosteiro da Penha sem ser católico. O turismo religioso tem uma característica muito positiva porque permite a coexistência de diferentes crenças e culturas. Esta peregrinação não só alimenta e fortalece a fé das pessoas, mas também promove um tempo de reflexão e autodescoberta.

Sem entrar nas questões de advertising and marketing relacionadas a esses locais, pode-se dizer que cada native sagrado, atraindo a circulação de pessoas, desempenha um papel muito importante principalmente no fortalecimento da memória religiosa. Sem memória, a religião enfraquece. Portanto, mantendo e fortalecendo a memória de seus fiéis, esses lugares servem para reunir e fortalecer a unidade de seus membros. Isso se aplica a todas as religiões. Veja, por exemplo, a cidade de Varanasi (o native mais sagrado do hinduísmo) na Índia, que recebe cerca de 750 milhões de pessoas por ano, ou Meca, um lugar que todo muçulmano deve visitar pelo menos uma vez na vida. Claramente, este parece ser o dever do crente, um fardo a cumprir. No entanto, na experiência religiosa mais profunda, as pessoas não o consideram um fardo ou um dever, mas um “prazer” de algo que se assemelha a uma espécie de desejo. Está na constituição humana desejar estar em um lugar sagrado ou vivenciar um tempo sagrado, independentemente da religião.

Até pouco tempo se desenvolveu entre nós o “turismo de sensações”, como os “Passos de Anchieta” aqui no Espírito Santo, a “Estrada Actual Religiosa”, que percorre 38 municípios de Minas Gerais e São Paulo, a “Rota da Fé Campo Mourão” no Paraná, “Caminho dos Santos Mártires do Brasil” inspirado no “Caminho de Santiago de Compostela” (Espanha), que percorre 140 quilômetros no Nordeste do Brasil, e “Caminho das Missões” no Sul do Brasil. O turismo de experiência parte do cotidiano de visita a locais religiosos e culturais e conduz o peregrino a um processo de imersão na forma de uma vivência mais intensa na cultura de uma determinada população.

Os turistas religiosos muitas vezes não têm essa experiência mais profunda dos lugares que visitaram. O peregrino que percorre estes trilhos não só reforça a memória de algo extraordinário nas suas vidas, como também este percurso os ajuda a desenvolver um respeito ainda maior pela diversidade cultural, ética e religiosa. Tendo mais tempo para mergulhar na realidade native, esta experiência contribuiu muito não só para o fortalecimento da fé e do compromisso na Igreja, mas também alimentou no homem atual o desejo de um encontro maior consigo mesmo e com o ambiente como um todo . A viagem torna-se um momento de concentração, retiro, encontros espirituais.

Parece necessário fazer uma pergunta crítica: é elementary que as autoridades religiosas que cuidam desses locais de turismo religioso assegurem que não haja espaço para a exploração absurda da fé dos fiéis em termos econômicos. Quando a religião se torna um negócio, ela perde a conexão que alimenta a fé. Assim como quando a religião se torna política, a fé enfraquece.

Há também um problema mais native a ser observado. O Espírito Santo se destaca como native de turismo religioso e sensação. Nessas férias, o estado fica cheio de gente, não só nas praias. Não podemos reduzir o nosso turismo à praia. Existem inúmeros lugares religiosos, culturais e históricos. Percebemos ainda mais claramente que as pessoas que vêm aqui não podem visitar a igreja, exceto durante um serviço ou celebração. Em nosso entendimento, a esfera pública deve interagir com o planejamento do turismo para melhor receber e acolher as pessoas, e não apenas cuidar da rede e infraestrutura hoteleira. O turismo religioso é uma fonte de recursos para o estado.

A última pergunta gostaria de registrar como uma preocupação pastoral. Na Europa, grandes catedrais e igrejas históricas estão muito lotadas de turistas, mas quase sempre vazias como espaços para celebrar a fé. Cá entre nós, caberia perguntar até quando essa força religiosa persistirá na cultura brasileira? Os analistas da Ciência Religiosa não apenas pintam um quadro um tanto cético dessa situação, mas também alertam sobre o surgimento, especialmente no Ocidente, de uma sociedade secularizada, ateísta e não religiosa.

Lugares sagrados de diferentes religiões poderão permanecer como objetos culturais; ainda pouco ou nada irá percorrer um longo caminho para alimentar a lembrança da fé das pessoas. Não se aplica a eles. Será apenas um bem cultural inserido no patrimônio histórico. Na Europa, as pessoas viajam por seus espaços apenas para contemplação estética. Não é mais sobre a fé dessas pessoas. Daí a advertência do Papa Francisco de que a experiência de fé não deve ser apenas uma visita a lugares sagrados. Esse parece ser um grande desafio para o turismo religioso no sentido de ir além dos encantos estéticos dessas viagens.

Edebrande Cavalieri

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