Boulos critica fala de Múcio e minimiza ligação de ministro – 20/01/2023 – Poder

Guilherme Boulos (PSOL), que está prestes a assumir o cargo de deputado federal, chega ao Congresso com a intenção de fortalecer a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), lutar contra o legado de Jair Bolsonaro (PL) e adotar a esquerda -bandeiras que renderam mais votos para ele acima de um milhão de eleitores.

“Será um governo extremamente difícil”, diz em entrevista ao Folhareafirmando a fé na capacidade de Lula de enfrentar obstáculos como o ressentimento público contra o bolsonarismo, as ameaças de golpe e o frágil apoio do governo no Parlamento.

Mas a proximidade do PT não impede Boulos de criticar as declarações do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, de que os acampamentos contrários ao resultado das eleições eram manifestações democráticas e que seus amigos e parentes estavam envolvidos.

Ao mesmo tempo, minimiza os vínculos entre a ministra do Turismo, Daniela Carneiro, e os milicianos. A futura parlamentar afirma não haver “fortes indícios” de sua ligação com criminosos, ao contrário do que acredita ter acontecido com Bolsonaro e sua comitiva. “São casos muito diferentes.”

Pré-candidato a prefeito de São Paulo em 2024, o líder do movimento por moradia diz querer acelerar um acordo com o PT sobre o compromisso de apoio assinado por Lula. O psolista chama o prefeito Ricardo Nunes (MDB), seu adversário digital, de “administrador de condomínio”.

MANDATO DO DEPUTADO

Boulos se descreve como o deputado federal mais votado da história da esquerda brasileira e diz ter objetivos claros: “Meu papel no Congresso é ajudar Lula a reconstruir o Brasil e colocar os programas populares e de esquerda na agenda política do parlamento. Uma delas será o aumento da tributação da população de alta renda, que deve entrar no debate da reforma tributária.

“E enfrentarei o golpe sem trégua. Quem acreditava que o bolsonarismo acabaria com a derrota de Bolsonaro aprendeu no dia 8 que isso não seria possível”, continua.

Boulos tem dois projetos de lei em mente: um incentivando a criação dos chamados população de rua, com acesso à moradia.

CENÁRIO PARA SQUID

“Acho que será um governo extremamente difícil”, conclui, culpando “a extensão dos estragos do bolsonarismo” nas políticas públicas, como viu em detalhes quando integrou uma equipe de transição na área da cidade.

“O desafio do governo Lula é reconstruir o país, e isso não é fácil. [Há] conjunturas difíceis: o bolsonarismo ainda presente na sociedade com uma parcela radicalizada do golpe, e a correlação de forças no Congresso Nacional, que embora tenha a maioria de apoio a Lula, não é bem a maioria em relação ao programa que foi eleito.

Psolista defende que Lula deve dialogar com o centrão, caso seja feito um acordo em bases diferentes das utilizadas por Bolsonaro. “O que não pode é terceirizar para o governo, com um orçamento sigiloso que o Lula já traçou. Agora haverá uma disputa. É pure que existam posições divergentes em um governo com composição tão ampla.

Boulos, político forjado nos movimentos sociais, vê o apoio standard, “principalmente em um momento tão desfavorável”, como um componente básico do governo. “Tenho confiança na capacidade de Lula superar os obstáculos, mas também vai exigir a mobilização da sociedade”, afirma.

Para ele, a construção do governo depende disso. “Não faz sentido pensar que todas as soluções virão apenas da Praça dos Três Poderes. E o papel do governo é chamar a sociedade para participar.”

PACIFICAÇÃO X ESQUECIMENTO

“É preciso dizer com todas as letras: a oitava foi uma tentativa de golpe dos bolsonaristas”, diz Boulos.

Para ele, a “punição exemplar” dos responsáveis ​​é uma forma de “não naturalizar e impedir a dissensão nessas condições brutais e golpistas”. Portanto, “não pode haver anistia para quem financia e promove o golpe”.

Sem consequências, “pode acontecer de novo e pode se tornar o estandarte da oposição. Não se trata de vingança, mas de traçar linhas de demarcação. Pacificar é uma coisa, esquecer é outra.

FATOR MUSICAL

Questionado sobre o papel do ministro da Defesa na prevenção do Atos 8, Boulos diz que “o governo do Distrito Federal foi o maior responsável pela clemência, com a Polícia Militar praticamente escoltando os líderes do golpe para destruir os palácios”.

“Agora eu acho que o ministro Múcio deveria escolher melhor seus amigos. Se ele diz que tem um amigo no campo de bombardeio, isso não é regular. Esses campos não eram democráticos porque defendiam um golpe de estado”, responde.

PERGUNTA DE DANIEL

Questionado sobre os vínculos entre o ministro do Turismo, ligado à União Brasil, e os milicianos de seu posto de votação, Belford Roxo (RJ), revelados por FolhaBoulos repete a fala de integrantes e aliados do governo Lula.

“Não sei os detalhes das acusações se for a julgamento. Sou a favor de amplo direito de defesa, mas se houver indícios da ligação da ministra com a milícia, serei um dos que defenderá sua saída [do cargo]”.

Ele nega qualquer contradição entre sua posição no governo Bolsonaro, quando usou o termo miliciano para se referir ao então presidente, e sua aparência atual. “Pra mim, o pau que bate no Chico bate no Francisco. [Mas] São casos muito diferentes.”

Ele diz que o governante anterior opinou com “ligações políticas, muitas evidências e evidências sólidas”, incluindo figuras como Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz.

O grupo político de Daniela mantém contactos com a família do ex-primeiro-ministro, condenado a 26 anos de prisão por homicídio e atividades criminosas. Ela também recebeu o apoio de outros acusados ​​de liderar grupos armados.

“Não cabe a mim defendê-la, não sou advogado dela. Se de fato houver uma ligação comprovada entre ela e a milícia, ela deve se demitir do governo e responder na Justiça.” antes de mudar de assunto. “Não sou conselheiro [de Lula] ou um comentarista político sobre as decisões do governo.”

PEDIDO DE PREFEITO EM 2024

“Quem votou em mim como deputado federal não só sabia [do projeto da candidatura] como você espera que eu faça isso porque eu nunca escondi isso. Seria hipócrita fingir que não sou candidato. Sim, seria injusto com meus eleitores”, diz ele.

Depois de avançar para o segundo turno da eleição paulista de 2020, Boulos diz confiar na promessa de Lula de que o PT não citará um nome na disputa e apoiará um aliado. Ele anuncia que vai “diálogar amplamente” com o partido para desarmar a resistência e “construir o processo em conjunto e com naturalidade”.

Para Boulos, as circunstâncias serão “muito mais favoráveis” para ele desta vez, com um resultado positivo para o governo Lula – o que ele espera que a campanha comprove. Além disso, acredita que o mandato federal o tornou mais conhecido e “ganhará mais experiência política”.

NUNES E TAXA ZERO

“Ricardo Nunes administra o São Paulo como se fosse um administrador de condomínio. Ele não é um líder político, não tem visão para a cidade, a cidade não tem sentido”, diz Boulos, ainda falando sobre “incompetência e falta de vontade política”.

O psolista diz estranhar que a tarifa zero no transporte público, bandeira dele e de seu partido, seja mencionada por Nunes e pelo prefeito Milton Leite (União Brasil).

“Acho muito estranho quando figuras ligadas à histórica máfia dos transportes passam a defendê-la de forma oportunista e casuística. Essa máfia é uma conspiração de empresas que ganham licitações muitas vezes e que não têm transparência”.

Segundo ele, introduzir pagamentos sem planejamento, de forma eleitoral, pode virar um “tiro no pé” e acabar desmoralizando a iniciativa.

“Milton Leite concedeu uma entrevista [à revista Veja São Paulo] dizendo que “ou introduzimos uma tarifa zero ou Boulos ganha a eleição.” Então o motivo é para me impedir de ganhar?”


raio-x | Guilherme Boulos, 40

É formado em filosofia e mestre em psiquiatria pela USP. Coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), foi candidato à presidência em 2018 pelo PSOL. Chegou ao segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo e foi derrotado pelo candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB). Foi o deputado federal mais votado em São Paulo em 2022 com pouco mais de 1 milhão de votos

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